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Fusão Carrefour e Pão de Açúcar: um romance policial?

Jean-Jacques Gaudiot – Consultor em comércio exterior EZreport!

Diário de Pernambuco – segunda-feira, 11 de julho de 2011

É pertinente uma reflexão acerca da operação de fusão Carrefour-Casino-Pão de Açúcar. Com ela, surgem perguntas e, excelentes temas de debate de ideias.
Pelo desenrolar da história, parece-nos um “romance policial”. Isso porque, em tal formato de literatura, quando lemos, sempre perguntamos: quem vai sair ganhando com o crime? Devo dizer que achei a montagem jurídico-financeira complicada. Não se vê, às claras, quem vai sair perdendo. Porém, com certeza, verificamos quem sairá ganhando: o empresário Abílio Diniz.

O BNDES, que participa da engenharia financeira montada, entra na megafusão com um aporte de cerca de R$ 4 bilhões. Ora, tal banco federal, tem por finalidade o desenvolvimento econômico e social de empresas, sendo o povo, seu principal sócio. Num primeiro ponto para o debate, pergunto: quem de nós gostaria de colocar seu dinheiro numa associação, onde dois dos sócios, Abílio e Casino, trocam insultos diariamente via comunicados em jornais? Acredito que a resposta é óbvia.

Além do caso específico do Pão de Açúcar, deve se refletir sobre o papel do BNDES na vida econômica brasileira. O banco permite às empresas financiar seus projetos de desenvolvimento com empréstimos de 6 ou 8% por ano, enquanto tradicionais dariam 3 a 5% por mês. Assim cumpre um papel essencial na sociedade brasileira, ajudando a inovação e criando empregos. Na operação montada, o papel do BNDESPar, que é a empresa de participações do BNDES, já vem menos claro. Ela entra com capital, o que é nada de mais, para a empresa que o recebe, um empréstimo, de longo prazo com 0% de taxa de interesse. Este empréstimo pode trazer retornos de 30% ao ano ao próprio BNDES ou mais, porém pode ser perdido totalmente em caso de falência da empresa investida. Em outras palavras: o retorno talvez seja maior entretanto, o risco é com certeza maior. Por essas razões que em países como os EUA, há bancos para empréstimos clássicos, e entidades separadas, com profissionais de perfis totalmente diferentes, tais como os business angels e os venture capitalists (VCs).

Esse convívio pode até dar certo em curto prazo, no atual momento de euforia econômica, quando perdas em alguns projetos são compensadas por ganhos em outras operações. Porém, como os EUA o provaram na crise de 2008, e, mais recente, a Grécia, tais situações não são eternas e alguém um dia terá que pagar a conta. Será o povo brasileiro ou seja, nós. Ou pior nossos filhos ou netos. Como cidadãos, devemos estar atentos aos passos seguintes que serão dados em relação a tal fusão, que não agrega valor à economia nacional nem ao povo.

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