Notícias, artigos e opiniões

TSUNAMI MONETÁRIO OU DROGA ECONÔMICA?

Publicado no Jornal O Valor, 12/04/2012

Por Jean-Jacques Gaudiot, consultor em estratégia internacional

O Governo queixa-se da entrada maciça de capitais externos, entrada que mantém o Real elevado e prejudica a competitividade das empresas na exportação. Aponta agentes estrangeiros como a grande culpa dos nossos problemas. No entanto, existe um modo simples de parar a entrada de capitais: diminuir a taxa de juros que, historicamente, é uma das mais elevadas do mundo. Solução simples demais, pois o Governo, além de ele mesmo precisar dos recursos, sabe que voltaria de uma taxa de inflação de dois dígitos.

O verdadeiro desafio não é impedir a entrada de divisas (fatores externos), mas sim conseguir controlar a inflação com um taxa de juros baixa, ou razoável (fatores internos). O problema se manifesta como sendo externo, porém a raiz do mal é interna, nos equilíbrios das finanças brasileiras. Isso não deixa de ser uma boa noticia: pouca influência temos em cima desses ricos investidores estrangeiros, totalmente desconhecidos, enquanto, com o poder dado a todos os brasileiros de trocar os governantes em eleições democráticas, temos como pressionar os nossos políticos para agir mais rápido.

Além do mais, a comparação com um “tsunami financeiro” reflete mal a realidade da situação no mercado financeiro (mesmo que seu uso apresenta um forte impacto para marketing). Um tsunami é um fenômeno que acontece quando muita água (a oferta) está chegando numa terra (a demanda) que não está preparada para recebê-la. Esse desequilíbrio entre a oferta e a demanda provoca uma catástrofe.

Se tiver que efetuar uma comparação com o mesmo impacto visual, seria mais adequado dizer que estamos na situação do comércio de narcotráfico entre os Estados Unidos e México, no qual há um equilíbrio, nefasto, entre ambas as partes, e onde tanto os consumidores quanto os fornecedores carregam uma parte da culpa.

Nos nossos mercados financeiros, a oferta é adaptada à demanda, pois se não fosse, o dinheiro não teria como entrar. É verdade que o influxo de dinheiro é considerável, porém não se pode ignorar os fatos que alguns agentes econômicos locais o pegam, o aceitam e o usam : o governo brasileiro para pagar os investimentos realizados no país ou, pior, para cobrir as despesas correntes, ou as empresas para aumentar o capital ou para se separar de parte do seu capital, ou para se endividar.

 

E esse aumento da dívida é até o mais preocupante, pelo exemplo que vários países europeus mostraram nessas últimas décadas. Aumentaram o endividamento paulatinamente, desde os anos 70, até que, um dia, o sistema não aguentasse mais. Como dizem os americanos: in life, there is no free lunch, ou seja, na vida não existe almoço de graça, e um dia a conta chega.

O ponto de partida do endividamento no Brasil é muito baixo, e concordo com os economistas que predizem que haverá duas décadas de crescimento no Brasil. Depois, o futuro é mais incerto e depende daquilo que será decidido e implantado durante essas duas décadas, do retorno nos investimentos que estão sendo desenvolvidos baseados em dívidas. Dito de outro jeito: hoje, estamos bem, porém estamos preparando o futuro dos nossos filhos, que, dependendo das nossas decisões, será bom ou ruim.

Jean-Jacques Gaudiot é sócio da EZreport Consultoria Internacional

Voltar à página de artigos e opiniões