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Banco Central e terras raras

04/09/2011

Artigo escrito pelo consultor em estratégia internacional e sócio-diretor da EZreport, Jean-Jacques Gaudiot.

A decisão do Banco Central de baixar as taxas de juros foi uma surpresa para todos e indica, antes de tudo, que a inflação ou queda do crescimento é o perigo que o governo mais teme.

Inflação, em um Brasil que conheceu a hiperinflação, está ainda dolorosamente viva na memória não somente do País, mas também das pessoas. Ela corrói o poder de compra e aniquila o poder da moeda do país, entre tantos mais.

A queda do crescimento, inclusive, torna-se igualmente uma ameaça forte: o desemprego cresce, o poder de compra estagna. Diante desse cenário, talvez, o Brasil estaria entre os piores alunos dos emergentes, pois além dos problemas econômicos acrescentar-se-ia a humilhação mundial.

Diante desses dois grandes temores, o governo escolheu favorecer o crescimento, provavelmente uma decisão sadia, ao considerar-se que a desaceleração da economia mundial, trará conseqüências financeiras no dito primeiro mundo. Como solução a essa realidade está a queda do preço das commodities como resolução ao perigo da inflação.

Vale ressaltar, no entanto, que a inflação atual ainda é conseqüência do crescimento alto provocado no ano passado. Tal elevação chegou ao índice de 7,1%, este decorrente das medidas tomadas pelo governo Lula para assegurar a eleição de Dilma Roussef. Consciente disso, o governo atual tomou suas providências para conter a inflação.

A decisão é positiva, mas a forma como ela foi tomada nos traz preocupação, pois o Banco Central (BC) deve ser independente do Governo e, obviamente, apesar das usuais denegações oficiais, não foi o caso: o BC tomou suas diretrizes, a partir do Ministro da Fazenda.

Diante disso, é importante ressaltar que numa democracia, o sistema deve funcionar com poderes e contra poderes. Às vezes, no curto prazo, pode até parecer contra-produtivo, pois o processo é mais vagaroso, porém sempre fica melhor no longo prazo, evitando a tomada de algumas decisões precipitadamente ou pelos interesses de uma única parte. Assim, sejamos claros: a situação presente é inadmissível e deve ser corrigida.

Além do mais, esse assunto, no qual foi palco das atenções nos últimos dias, não deve nos fazer esquecer que tais eventos são simples ajustes à política econômica do Brasil. Eles não formam uma política econômica por si mesmo. Detalhes importantes sim, todavia, menos importantes que o rumo que o Governo deve fixar para o País.

Nesse sentido, recentemente surgiu uma notícia que passou quase despercebida, porém da maior importância. Empresas chinesas estão tentando entrar no capital da CBMM – Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração – empresa brasileira que domina a produção mundial do niobium, uma das famosas terras e metais raros. Tais elementos são estratégicos, porque, entram na fabricação de muitos produtos. E a China domina entre 90 e 95% da produção desses elementos.

Em vez de deixar a China aumentar ainda mais o que já é um quase-monopólio, não seria melhor deixar a CBMM independente? Ou ligada à Vale, outra mineradora nacional, porém com maiores recursos financeiros, com a missão de descobrir outras terras raras no Brasil? E não é, de certa vez, um vexame deixar essas terras e metais raros sair do Brasil como matérias brutas e voltar sob forma de equipamentos eletrônicos, de alto valor agregado?

Com uma política de patriotismo econômico bem pensada, o Brasil poderia e deveria desenvolver um novo pólo de competências minéricas, inovadora, criadora de riquezas e de empregos, tornando-se um competidor para o Dragão Asiático. Competidor esse, do qual todas as empresas consumidoras no mundo vão acolher de braços abertos.

Aí entra uma verdadeira política de desenvolvimento do País. E enquanto o Governo não se dedicar corpo e alma a essas missões, que são suas tarefas centrais, não terá mais tempo nem necessidade para interferir nas decisões do Banco Central.

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