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Protegendo o Futuro

15/11/2011

Artigo publicado na Folha de Pernambuco, escrito por Jean-Jacques Gaudiot, consultor em estratégia internacional e sócio-diretor da EZreport

O Brasil de dez ou vinte anos atrás, com seus complexos de inferioridade, já era. Hoje, o país transforma-se numa nação rica, de crescimento forte, ao lado de países do dito Primeiro Mundo em plena crise de confiança e enfrentando estagnação econômica. E essa riqueza deve ser protegida das cobiças externas.

Assisti recentemente, no Congresso Nacional, em Brasília, ao painel da Defesa Nacional organizado pela Comissão de Relações Externas e Defesa Nacional. Na ocasião, um dos participantes recomendava a retomada do desenvolvimento da bomba nuclear, argumentando que o Brasil cumpriu sua promessa de parar o investimento dessa arma, enquanto os demais países ficaram com seus estoques.

Se o argumento dele pode ser considerado como fato, não podemos duvidar que os nossos vizinhos (e temos muitos!) se sentiriam ameaçados se o Brasil, de repente, tivesse uma arma de tal potência. Sem dúvida, reagiriam de forma imprevisível e perigosa: o equilíbrio de toda America Latina estaria ameaçado.

Além do mais, não existe Defesa Nacional sem Relações Externas, como o diz o próprio nome da Comissão. O Itamaraty teve uma longa tradição, apesar de alguns tropeços recentes, de não fazer inimigos na frente diplomática, afastando-se das fontes de conflitos, criando amigos no mundo afora. Montar uma bomba nuclear não é exatamente um ato amigável.

Enfim, a bomba nuclear é uma arma do passado (com a exceção, não das menores, do seu uso potencial por terroristas). E, tentar preparar-se para as guerras olhando para o passado é o melhor modo para perdê-las. A França perdeu da Alemanha, em 1939, por essa razão, não tendo entendido que o domínio dos ares tinha tornado essencial.

Mais recentemente, o governo americano anunciou por meio da Administração Nacional de Segurança Nuclear (NNSA), a desativação da bomba nuclear B-53, uma das maiores e mais antigas armas do arsenal norte-americano, construída durante a Guerra Fria, no ano da crise dos mísseis de Cuba.

Portanto, deveríamos dizer que a guerra do futuro será, ou já é cibernética? Aí, estão as maiores ameaças: imagine um hacker, às ordens de um concorrente estrangeiro, conseguindo implantar um vírus nos computadores do país, derrubando o fornecimento de energia elétrica para os principais centros industriais, ou simplesmente cortando as redes de comunicação que hoje fazem parte das nossas vidas.

Nessa mesma linha de otimização das nossas armas do futuro devemos reconsiderar o programa F-X2, ou seja a compra de quarenta caças. Provavelmente não seja o mais adaptado às nossas realidades: o número de aviões (de custo unitário elevadíssimo e de tecnologia estrangeira) é pequeno para um território de dimensões continentais como o Brasil. Cada avião apresenta um poder de fogo enorme, porém extremamente localizado.

Pelo mesmo custo total, ou até menor, centenas de chamados VANTs, ou aviões sem piloto, seriam mais eficientes na defesa, tanto civil quanto militar, das nossas fronteiras. No mundo inteiro, a tecnologia para tais equipamentos ainda é incipiente, podendo ainda ser desenvolvida localmente com competência e excelência por empresas nacionais pequenas, sem precisar de financiamentos enormes em P&D.

Eis o melhor de todos os mundos: um sistema de Defesa adaptado ao nosso país, a um custo razoável, com uma liderança tecnológica mundial que ficaria do nosso domínio, propiciando também exportações fortes.

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